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quarta-feira, 21 de junho de 2017

ACÚMULO DE CÚMULOS QUE SE ACUMULARAM

É o cumulo um notebook que só funciona ligado na tomada. Um objeto criado sob o conceito da mobilidade, agora paraplégico. Um notebook na cadeira de rodas. Um notebook pendurado pelo fio da tomada é o fim da picada. Assim como foi essa sentença. Uma sentença de morte, um notebook que não anda mais. A perda do fio da meada seria muito bom nesse caso, porque o fio da meada em questão é o fio da tomada, metaforicamente falando. Uma mente eufórica que funciona sob metáforas. Não consigo aceitar essa situação. Literalmente. Uma mente que funciona de forma literalJÁ DEU PRA ENTENDER. Um computador portátil, agora de mesa. All in one: ele, o fio, a tomada, a bateria. Tolhido pela bateria. Eu bateria em quem desenvolveu uma bateria que funciona queimada. O meu sonho é que os meus problemas tecnológicos fossem resolvidos com violência. Eu distribuiria socos binários. Direta, esquerda. É um acúmulo de cúmulos. Aperte F1 se seu teclado parou de funcionar. Bolo de carne é só uma desculpa pra servir um hamburger sem pão. Essa frase não é minha é de algum seriado que eu não lembro mais o nome porque ultimamente a gente vê tanta coisa que todas as histórias já estão ficando tênues ao ponto de aparecerem no meio de um texto do word. Uma mentira repetida cinquenta vezes torna-se uma mentira repetitiva. É o cúmulo como as coisas podem se acumular. O computador não está respondendo. Finalizar tarefa. Forçar desligamento. Cultura do estupro. A conexão parou de funcionar. O jogo mostra o dinossauro correndo da queda do meteoro. É o fim da picada. É o fim dos dinossauros. Can’t play the current song. O vídeo não está mais disponível. Socos não, acho que chutes criptografados resolveriam. Eu não consigo mais escrever do jeito que eu gostaria. Eu nunca escrevi nada do jeito que eu gostaria de ter escrito. As coisas se parecem com o dono, não, isso são os cachorros. Que se parecem. Todas as coisas são sentidas pela primeira vez. A primeira vez da segunda vez. A primeira vez da terceira vez. Hiperlinks. Atenção fragmentada. Desfragmentação de disco. Isso pode demorar algumas horas. 21 trechos de músicas em uma música só parece uma ideia genial, digital, atual, sem igual, mas mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma até quando o corpo pede um pouco mais de alma eu finjo ter paciência. Plágio. Ou apropriação de referências. MST. Movimento sexualmente transmissível. Meu sonho é ter a paciência de escutar uma música só de cada vez. Analogical. Pre-historical. Antes da escrita, o fogo, a alavanca, a corda, a pedra lascada.  É o cúmulo. Um juiz é uma pessoa física ou jurídica? Uma faculdade de física é uma pessoa jurídica ou física? E agora eu só estou juntando um monte de palavras como diria alguma voz que algum momento leu um amontado de palavras que porventura eu juntei. Jurei. Quem é que manda vídeo de 2 minutos 34 segundos no Whatsapp pelo amor de deus. 2 minutos e 34 segundos é quase uma música inteira se eu fosse ouvir uma música inteira. E isso não é um texto diria algum autor de algum livro azul e branco que agora já está meio amarelado de tantos germes das mãos que eu li na faculdade o que eu li foi o livro não os germes nem a faculdade que isso fique bem claro os germes não se leem só se for com microscópico e só se for no curso de biologia e eu fiz letras mas eu já comprei um microscópio pela internet e não foi um bom negócio eu não sabia ajustar nessa época e faz tanto tempo isso que meu notebook até funcionava sem estar ligado na tomada mesmo sem estar que tal apostar a gente não se fala mais por um mês você vai ver que o tempo não muda NADA eu to nem aí de mãos atadas de pés descalços com você meu mundo andava de pernas pro ar e como agora estamos na fase do hipertexto o que conclui esse texto pode muito bem ser uma imagem se eu quiser e eu quero porque eu tenho recursos pra isso mesmo eu tendo um computador com necessidades especiais assim como todos nós temos especificidades nas coisas que a gente necessita mas eu não quero entrar em discussões desse tipo eu só quero mesmo compartilhar coisas na internet que parecem dizer algo de mim que eu não teria jamais a paciência de explicar talvez o Lenine tenha ora você que inventou a internet tenha a fineza de desinventar segue em anexo a imagem que termina o texto





quinta-feira, 3 de abril de 2014

OS MURROS QUE AS FACAS LEVAM

Todos sabemos que dar murros em pontas de faca não é adequado. Não é adequado por dois motivos: 1) não adianta. 2) vai doer.

Realmente, é o cúmulo entrarmos em situações que poderiam ser evitadas. É o cúmulo socarmos facas indefesas que não fizeram nada contra a gente a não ser estarem prontas para serem usadas quando precisarmos. Até que sejam empunhadas e provem o contrário, as facas estão a nosso favor. 
 
Esse texto não visa defender as mãos. É um manifesto a favor das facas. É muito claro que a culpa é exclusivamente das mãos. As facas são armas brancas (na verdade, cinzas) e inocentes. Só se tornam culpadas quando em punho. Esse texto é um pedido para as mãos se colocarem em seus devidos lugares.
 
Mãos, segurem as facas. Há um cabo para isso. (Na verdade mesmo, o ideal seria não precisarmos das facas pra nada e nos afastarmos completamente delas. [A menos que você seja o Wolverine que supera esse problema e nunca vai passar por isso porque simplesmente consegue dar murros COM pontas de faca])


Imagem meramente esfaqueativa

A faca é tão prestativa, mas tão prestativa, que até quando nós a amolamos ela melhora. Alguém por acaso já ouviu falar de alguém que cumpre o seu serviço melhor quando é amolado? Enquanto você pede PARA DE AMOLAR, SAI DAQUI! a faca se aprimora...
A faca não tem culpa de ter uma ponta que fere. A mão sim, tem culpa de desferir golpes contra uma coisa cortante. O enfrentamento é absurdo. Por que ter dó da dor que as mãos sentem se foram elas mesmas que procuraram por isso? Por que ninguém vê o lado da faca? Não seria uma desonra para a faca ser agredida por coisas que ela costuma cortar? Em defesa dela, que apenas cumpre com a sua função cortante, protesto contra todos os tipos de mãos que querem remar contra a maré e possuem o desplante de baterem em armas. 
 
Um dia, eu presenciei a mão se vangloriando diante da faca esmurrada. Ela dizia coisas como: "Estou tentando provar o quanto eu posso te machucar mesmo sentindo dor. Você não me fura mais do que eu te sujo de sangue. A cada murro desferido contra a sua ponta, sou eu quem me afio."
                                     
A faca, despontada, tentava explicar: "Você é muito presunçosa. Eu sou uma forma de expressar a agressão, e mesmo assim você me agride. Eu te ofereço um cabo, um encaixe de mãos... mas você prefere a ponta. Você parece uma criança subindo pela escada rolante que desce. É um erro feio você me usar de alvo quando na verdade eu sou a flecha que deveria ser lançada."
 
"Detesto shoppings." - Disse a mão, antes de dar o último soco da situação desnecessária da vez.

domingo, 16 de março de 2014

Dercy Gonçalves: socrática por natureza, nietzschiana por acidente


“Não lutei para ser nada. Nem luto.
A vida te encaminha.
Você é jogada.
Às vezes você até quebra uma perna.”
(Dercy Gonçalves, 1987)

“E antes de tudo,
o fato de eu não necessitar nenhuma intenção,
mas apenas a simples espera...”
(Nietzsche, 1888)


Eu contei. Em 1 hora e 44 minutos de entrevista, Dercy Gonçalves fez o Roda Viva rir 81 vezes. Isso corresponde a mais ou menos 77% do tempo da entrevista. O que dá, aproximadamente, uma média de 0,778 risadas por minuto.


Link para assistir à entrevista


O engraçado é que o Roda Viva não é um programa de humor. É um tradicional programa de entrevistas, formado por uma bancada séria de jornalistas, articulistas, dramaturgos, e nessa ocasião especial, por alguns teatrólogos, alunos de teatro e atores.

O mediador da entrevista, muito cortês por sinal, explica que o convite feito a Dercy se deve ao fato de ela ser uma excelente atriz. De braços cruzados e dourados (o figurino é tão bom quanto a resposta) e num tom profundo de tédio, ela dispara: “Eu sei que sou. Muito obrigada... mas eu já sei.” E melhor ainda do que o figurino, o tédio e a resposta, é que ela não soa arrogante. “Sou formidável... senão não tinha a casa cheia todo dia (...) eu reconheço que eu sou”. Ainda assim, eu juro, ela consegue continuar soando verdadeira, lógica e transparente - se o espetáculo lota é porque ela é boa, simples assim. Mas talvez eu tenha sido enganada por uma naturalidade forçada, advinda dos seus mais de 80 – incríveis e recordistas (ela está no Guiness Book {ver fonte} como dona da carreira mais longa do mundo) - anos de teatro, cinema e televisão.

Se Dercy estivesse viva, ela não leria esse texto. Ela não gosta de ler, e tem dois motivos suficientes para isso. O primeiro, diz ela, é porque ela sempre dorme com o livro na mão. O segundo, mais nobre, é:  "Não leio livro de ninguém para não aprender as coisas dos outros". Isso – embora ela não ligue para quem seja Nietzsche - é nietzschiano.
Nietzsche recomendava em Ecce Homo (1888) que se quiséssemos pensar por conta própria, e realmente criar alguma coisa, deveríamos fechar todos os livros. Em suas próprias palavras: “Em tempos de trabalho profundo não se vê livro algum em volta de mim: eu me guardo de deixar alguém discursar ou pensar perto de mim”.

Sem saber, Dercy também vai ao encontro da tese A Angústia da Influência, de Harold Bloom. De acordo com a tese, a influência que os autores exercem uns sobre os outros são males - porém benéficos - para a literatura (no caso de Dercy, para a vida), que se transforma em uma sucessão de apropriações, afastamentos e semelhanças, que pode comprometer ou “melhorar” a originalidade das obras (no caso de Dercy, da vida).

Talvez eu tenha acabado de cometer um erro grave. Ao tentar comparar a DERCY GONÇALVES com um ALEMÃO MEGALOMANÍACO e um CRÍTICO CRITICADO, eu posso ter sido vítima de uma “confusão entre simples semelhança e dependência direta” [*], mas agora já foi.

[*] Tânia Franco Carvalhal (Literatura Comparada)


Para os desavisados que gostam de ouvir ela xingar, ela esclarece:  “Eu não falo palavrões. Eu falo... palavras. Gíria Brasileira.” Algum estudante de Letras poderia me ajudar?


Dercy se levanta decidida a ir embora da entrevista, mas fica presa pelo fio do microfone

Outra coisa sobre as suas maneiras de se comunicar: ao longo da entrevista, Dercy interrompe os jornalistas a todo momento. Responde antes que eles terminem as perguntas. Completa frases que não precisam ser completadas. Comenta o comentário dos comentaristas. Mas apesar da constante falta de etiqueta comunicativa ela não soa grossa, ela soa urgente.  Após ser acusada de “difícil”, ela explica: “O diálogo é tempo. Quando você sentiu que eu terminei você entra.” O problema é que ela parece “sentir” o término das falas alheias mais rápido do que todo mundo.

Para encerrar o assunto linguagem, Dercy menciona (não sei mais se é sem saber ou não) os questionamentos presentes em Crátilo, de Platão (sobre o significado dos signos): “Não sei se é o nome destino... os nomes é que me incomodam, sabe? Os nomes que dão é que me incomodam.” SAUSSURE, MEU FILHO, VOCÊ ESTÁ AÍ? MANIFESTE-SE.

Já que o nome Platão apareceu, nada mais natural do que mencionar Sócrates.


Dercy e Sócrates

“Essa gente me conhece, me respeita, me aplaude de pé.” (...) O que eu tenho? O que eu sou?  Até agora eu ainda não tive resposta.”

Isso que Dercy fez é simplesmente o método da maiêutica, desenvolvido por Sócrates. Se realmente for verdade que ela nunca teve contato com nenhum tipo de estudo filosófico ou literário, e que não nasceu pra ficar “queimando a pestana”, como ela mesma diz, só me resta pensar que ela é naturalmente socrática.

Dercy tem um conhecimento filosófico autodidata que ela insiste em não declarar. Quando acusada de estar "mal de espírito", ela não se ofende e nem rebate, apenas faz mais perguntas: “Eu não acredito em nada... mas será que eu não tenho espiritualidade? O que é espiritualidade? O que é isso?" Nenhum dos jornalistas do estúdio soube responder. Um teatrólogo tentou, hesitante: “Eu... acho que é o que você faz no seu show...”

Jean-Paul Sartre recusou o prêmio Nobel de Literatura, em 1964, porque duvidava da credibilidade dos premiadores. Adivinha só quem mais questionou a validade de uma premiação? Ela mesma, a própria. 
Dercy recebeu o prêmio APETESTP, em 1987, e o definiu como “um cacete dourado" e o sentimento foi: “achei de um ridículo tão grande...”. O jornalista insiste: “E você não gostou mesmo de receber o prêmio?” Ainda munida da maiêutica, ela avança: “É uma esculhambação (...) Aquele prêmio, quem deu? Por quê? Pra quê?” Coisa de existencialista... 

Todos ali presentes trabalham com informação, mas ficaram várias vezes sem reação diante da sabedoria de vida de alguém que afirma não saber nada. Acho que eu já vi essa história antes... só sei que... acho que já ouvi isso em algum lugar.... nada sei, alguma coisa assim. 

Dercy é um Sócrates que assume o título de corruptora da juventude muito antes de ser acusada. Morreu de velhice (na verdade, foi de insuficiência respiratória). Nada de cicuta. Como tem que ser. Como a sorte manda. Se é que isso tem nome.



terça-feira, 11 de março de 2014

RACHEL SHEHERAZADE: MENTIROSA E LITERÁRIA

Depois de assistir a entrevista de Rachel Sheherazade para A Máquina, eu tive a confirmação do que eu já sabia há tempos: ela não é nada daquilo. 

Antes de provar a minha confirmação, quero esclarecer o que é o “nada daquilo”. 

Rachel Sheherazade não é uma jornalista da Paraíba que ficou conhecida pelo seu ácido comentário que corroeu o carnaval de 2011. Rachel Shererazade não se tornou, por conta disso, a âncora do principal (e mais divertido) jornal (de todos os tempos) do SBT. Rachel não é um fantoche nas mãos do Silvio Santos e da batida e nocauteada mídia golpista, como quer a Carta Capital (e aproveitando a deixa, alguém podia bater na Carta Capital por publicar esse tipo de matéria {veja o link}). E por fim, Rachel Sheherazade também não é aquela jornalista de extrema direita, ultra-conservadora, cristã, mulher de bem e fã do Justin Bieber.

Não, Rachel Sheherazade não é nada disso que você está pensando, eu posso explicar. Rachel Sheherazade agora será desmascarada, descaracterizada e aomilhada nesse blog.


Rachel Sheherazade chorosa. Foto rara

Eu descobri, por a+b, que Rachel Sheherazade é nada mais e nada menos do um heterônimo. Criadora e criatura, Rachel é um ortónimo. Um personagem. Um alter ego do horário nobre. (Fernando Pessoa hoje vai puxar o meu pé...) Por extensão e por lógica, acho que eu também acabei de afirmar que Rachel é uma escritora, uma literata. E eu também acho que algum dos imortais deveria se levantar de uma das cadeiras da ABL para dar lugar para a moça sentar. Questão de educação literária. Ladies first

Eu desconfio do diploma de jornalismo de Rachel Sheherazade, não por incompetência jornalística, mas sim por excesso de outro tipo de competência: a narrativa e a interpretativa. Rachel tem tanta presença de palco que eu não sei o que ela está fazendo sentada atrás de uma bancada. Seus textos são tão bem fechados e estruturados que eu não entendo como o Ministério da Educação não a chamou até hoje para trabalhar de revisora dos livros didáticos. 

Rachel, a performer das notícias, merecia mais do que alguns minutinhos para falar o que pensa. Ela merecia uma companhia de teatro com peças intermináveis no estilo monólogo (e cartazes impressos na cor marrom). Manoel Carlos realmente errou na escolha da sua última Helena. Se como comentarista de guerra ela não agrada nem a gregos e nem a troianos, como leitora de suas próprias cronicas ela deixa todos os atores dos últimos tempos de Malhação (e das novelas das 6, 7, 8, 9 e 10) no chinelo.

Voltando ao assunto do diploma, eu acho que se alguém procurar vai encontrar nas gavetas de Rachel um certificado de Artes Cênicas ou de licenciatura em Letras. Rachel, rima com menestrel. Nunca li Interpretação e Superinterpretação, do Umberto Eco, mas imagino que ela saiba de cor.


P.S: Esse texto peca por exagero.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O nonsense e a realidade em Flappy Bird

O Flappy Bird é um joguinho para androids. No Flappy Bird, não existe reencarnação. No Flappy Bird, o personagem sofre de osteoporose avançada (não aguenta uma queda, falece no primeiro tombo sério).


Nonsense
O protagonista aparenta ser uma cabeça de pato, mais olhudo do que o normal e com uma única pena localizada no que sobrou do corpo que ele não tem. Essa única pena (já que não dá pra ver sinal da outra) é a sua ineficiente asa, que não proporciona voos planos. A ineficiência da suposta única asa é o que dá sentido (sentido? será mesmo?) ao jogo: tocar a tela infinitamente para que a cabeça de pato não caia no chão.

O Flappy Bird não tem fim, nem pausas, nem fases, e nem chefão. (Ou tem e eu não cheguei lá porque eu não passo dos 35 pontos.) Ao longo do jogo, não há nada que aumente a dificuldade gradativamente: ele é simplesmente difícil o tempo todo. (Ou será que eu sou muito ruim mesmo?)

O cenário lembra Mario Bros, e não sou só eu que acho isso. Uma conhecida me relatou que ela chegou a pensar que o objetivo do jogo era entrar nos caninhos verdes. Antes fosse, antes fosse...
O "Flappy" não esboça expressão alguma, é totalmente apático. Não lembra em nada o Mario Bros, que parecia feliz, boa gente e tinha objetivos nobres (salvar a princesa, enfrentar monstros, ingerir cogumelos). O Flappy é simplesmente indiferente. Ele assistiu Procurando Nemo e ficou obcecado com a parte do "continue a nadar". No seu caso, virou um continue a voar, continue a se esquivar. Ele ficou tão obcecado com o filme que adquiriu essa cara de peixe morto, sem memória.

Um pássaro que só voa mediante o touch screen, sem corpo e com cara de peixe. A Dolly também não entenderia.

Realidade
O jogo reproduz 3 ideais MUITO distintos, quase que antagônicos, ao mesmo tempo: o industrialismo, o anti-materialismo e o niilismo.

1. Por não ser possível dar pause no jogo, Flappy Bird nos diz que Time Is Money: expressão surgida no contexto da era industrial que significa, basicamente, que quanto mais se trabalha mais se ganha. O capital precisa ser acumulado. Na medida em que você perde seu tempo ultrapassando os caninhos verdes as suas moedinhas aumentam.

2. Os últimos desejos de Alexandre, O grande: não importa quantas moedas você tenha acumulado e nem quantos canos você tenha conseguido atravessar, o seu tombo não será perdoado e você morrerá tão subitamente quanto alguém com 2 ou 3 moedas. Não levamos nossos bens materiais para o túmulo. Morremos de mãos vazias. O Flappy também, e ele nem tem mãos.

3. Nihil - niilismo (nadismo), a morte do sentido : O despropósito da vida, o nonsense da caminhada humana. A falta de sentido da existência. O jogo não tem uma meta fixa, o passarinho não chega nunca a lugar nenhum, não faz diferença nenhuma se ele passou por 100 canos verdes, se está de dia ou de noite e nem se ele é azul, vermelho, ou amarelo.

Por que estamos jogando isso?


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

limpemus babam!

E no primeiro dia, o homem disse: "Que haja deus!" E deus apareceu para fazer coisas divinas, coisas tão divinas que podem ser consideradas quase-até-quem-sabe dignas de serem à imagem e semelhança, adivinhem de quem, chutem, sim, até... pasmem... coisas à imagem e semelhança do ...homem! Deus é tão divino que chega quase a ser humano! ("Meu deus, quanta honra!" é o que deus pensa às vezes.) E então no segundo dia o homem inventou um lugar, que por hora eu vou chutar que seja um cume de alguma montanha ou o meio de algum mar colorido aberto - já que eu não vou pesquisar sobre isso - enfim... e lá subiram para falar algo como: "Que haja uma pedra com leis!" E então a pedra passou a ditar as leis escritas por um deus destro que escreve com a mão canhota. Leis sem prazo de validade. Como se fossem aqueles alimentos que não apodrecem nunca mas que é bem provável de te matarem pela quantidade de conservantes e agrotóxicos. A pedra legal. A pedra legislativa. Duração pétrea. E então no terceiro dia, como já estava ficando chato, alguém disse: "Que haja sentimentos novos que provoquem diferenças!" - e todos se dispersaram e passaram a descobrir o tamanho do mundo e da terra e das florestas e das águas e das opiniões, mas então, quando estava ficando muito difícil e interessante demais para se aguentar e administrar, alguém propôs: "Que pensemos todos de um só modo pra ficar mais fácil!" E nesse dia o mundo ocidental virou o papel de parede do computador de deus.

Bem aventurados os que pouco se lixam, pois suas lixas durarão mais. Bem aventurados os que bebem, já que a modernidade é líquida. Bem aventurados os que passam mal depois de beber, considerando que o mal estar é de toda a civilização. Bem aventurados os que não possuem irmãos, pois herdarão sozinhos os bens do inventário. Bem aventurados os que só acreditam na palavra de deus, pois a maioria dos autores tem mais de um livro publicado - e ler cansa as vistas.

E no sétimo dia, finalmente, o homem disse: "Que apaguem a luz! A energia está cara!" - e o homem descansou.


P.S ¹: Postado a pedido de T.K
P.S ²: Esse texto trata mais de piadas internas do que de história.


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sobre Deus ser um micróbio no alface


Deus é um micróbio celestino. Micróbio porque é invisível, celestino porque é celeste - prefiro celestino ao invés de celestial porque celestial me lembra um CD de uma banda pop mexicana, e Deus - micróbio musical - só deve escutar gospel. Se bem que celestino me lembra o sertão. Espero, portanto, que não existam duplas de sertanejo gospel para que eu possa terminar esse texto.

Deus sertanejo. Caso os boatos se confirmem e Deus seja realmente brasileiro, poderíamos ter um micróbio celeste de bota, cabelo arrepiado e calça apertada. A propósito, Deus, por que você calça a bota e bota a calça ao invés de botar a bota e calçar a calça? (Deus sabe o que faz...)

Saindo um pouco da parte celestina e indo para a parte do micróbio: por que vocês não compram um microscópio para ver Deus? Com as lentes benzidas pelos padres e os padres lentos pelas benzidas...

Mas eu não deveria estar falando de Deus. É pecado falar de Deus em vão. E, por extensão, é proibido que pessoas vãs falem de Deus. E eu sou completamente vã partindo desse ponto de vista. Sou tão vã, mas tão vã, que eu deveria dirigir uma van. Meu nome deveria ser Vânia, a motorista de van.

Na biologia, há uma parte chamada taxonomia. E, embora eu tenha passado de raspão no ensino médio, eu sei que os organismos estão classificados por reinos. Deus, o micróbio, pertence ao reino dos céus. O reino dos céus é diferente dos outros e aceita uma espécie inferior a Deus: os humanos. Mas Deus aceita os humanos no seu reino dos céus porque os humanos são a imagem e semelhança dele (- ou Dele?). Deus, esse micróbio narcisista. Julga os humanos pela capa e nem se mostra a olho nu. Deus, micróbio moral, quer os nossos olhos vestidos para que não vejamos nem a sua capa e nem as suas páginas. Deus, micróbio iletrado, não escreveu o próprio livro e mesmo assim nós, os inferiores, atribuímos todas as páginas da bíblia ao seu corpo microscópico sem mãos. Ainda estou com a imagem do Deus micróbio sertanejo de calça apertada na minha cabeça. Me parece engraçado. Reconheço que talvez possa ser de mau gosto, mas ainda sim, engraçado. A graça das coisas acontece do mesmo modo que o sal na comida: a gosto. Eu sempre ponho menos sal do que as outras pessoas.

E por falar em comida, a conclusão do texto é de utilidade pública: lave bem os alimentos que são ingeridos crus, Deus pode estar no seu alface. Deus, o micro-organismo da salada. Deus é bom, mas só se consumido com moderação. Deus demais na hora do almoço causa infecção estomacal. Eu sempre lavo meu alface mais de uma vez. Não quero Deus. Nem micróbios. Nem sertanejo gospel. E estou vendendo o CD celestial da banda mexicana.