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domingo, 16 de março de 2014

Dercy Gonçalves: socrática por natureza, nietzschiana por acidente


“Não lutei para ser nada. Nem luto.
A vida te encaminha.
Você é jogada.
Às vezes você até quebra uma perna.”
(Dercy Gonçalves, 1987)

“E antes de tudo,
o fato de eu não necessitar nenhuma intenção,
mas apenas a simples espera...”
(Nietzsche, 1888)


Eu contei. Em 1 hora e 44 minutos de entrevista, Dercy Gonçalves fez o Roda Viva rir 81 vezes. Isso corresponde a mais ou menos 77% do tempo da entrevista. O que dá, aproximadamente, uma média de 0,778 risadas por minuto.


Link para assistir à entrevista


O engraçado é que o Roda Viva não é um programa de humor. É um tradicional programa de entrevistas, formado por uma bancada séria de jornalistas, articulistas, dramaturgos, e nessa ocasião especial, por alguns teatrólogos, alunos de teatro e atores.

O mediador da entrevista, muito cortês por sinal, explica que o convite feito a Dercy se deve ao fato de ela ser uma excelente atriz. De braços cruzados e dourados (o figurino é tão bom quanto a resposta) e num tom profundo de tédio, ela dispara: “Eu sei que sou. Muito obrigada... mas eu já sei.” E melhor ainda do que o figurino, o tédio e a resposta, é que ela não soa arrogante. “Sou formidável... senão não tinha a casa cheia todo dia (...) eu reconheço que eu sou”. Ainda assim, eu juro, ela consegue continuar soando verdadeira, lógica e transparente - se o espetáculo lota é porque ela é boa, simples assim. Mas talvez eu tenha sido enganada por uma naturalidade forçada, advinda dos seus mais de 80 – incríveis e recordistas (ela está no Guiness Book {ver fonte} como dona da carreira mais longa do mundo) - anos de teatro, cinema e televisão.

Se Dercy estivesse viva, ela não leria esse texto. Ela não gosta de ler, e tem dois motivos suficientes para isso. O primeiro, diz ela, é porque ela sempre dorme com o livro na mão. O segundo, mais nobre, é:  "Não leio livro de ninguém para não aprender as coisas dos outros". Isso – embora ela não ligue para quem seja Nietzsche - é nietzschiano.
Nietzsche recomendava em Ecce Homo (1888) que se quiséssemos pensar por conta própria, e realmente criar alguma coisa, deveríamos fechar todos os livros. Em suas próprias palavras: “Em tempos de trabalho profundo não se vê livro algum em volta de mim: eu me guardo de deixar alguém discursar ou pensar perto de mim”.

Sem saber, Dercy também vai ao encontro da tese A Angústia da Influência, de Harold Bloom. De acordo com a tese, a influência que os autores exercem uns sobre os outros são males - porém benéficos - para a literatura (no caso de Dercy, para a vida), que se transforma em uma sucessão de apropriações, afastamentos e semelhanças, que pode comprometer ou “melhorar” a originalidade das obras (no caso de Dercy, da vida).

Talvez eu tenha acabado de cometer um erro grave. Ao tentar comparar a DERCY GONÇALVES com um ALEMÃO MEGALOMANÍACO e um CRÍTICO CRITICADO, eu posso ter sido vítima de uma “confusão entre simples semelhança e dependência direta” [*], mas agora já foi.

[*] Tânia Franco Carvalhal (Literatura Comparada)


Para os desavisados que gostam de ouvir ela xingar, ela esclarece:  “Eu não falo palavrões. Eu falo... palavras. Gíria Brasileira.” Algum estudante de Letras poderia me ajudar?


Dercy se levanta decidida a ir embora da entrevista, mas fica presa pelo fio do microfone

Outra coisa sobre as suas maneiras de se comunicar: ao longo da entrevista, Dercy interrompe os jornalistas a todo momento. Responde antes que eles terminem as perguntas. Completa frases que não precisam ser completadas. Comenta o comentário dos comentaristas. Mas apesar da constante falta de etiqueta comunicativa ela não soa grossa, ela soa urgente.  Após ser acusada de “difícil”, ela explica: “O diálogo é tempo. Quando você sentiu que eu terminei você entra.” O problema é que ela parece “sentir” o término das falas alheias mais rápido do que todo mundo.

Para encerrar o assunto linguagem, Dercy menciona (não sei mais se é sem saber ou não) os questionamentos presentes em Crátilo, de Platão (sobre o significado dos signos): “Não sei se é o nome destino... os nomes é que me incomodam, sabe? Os nomes que dão é que me incomodam.” SAUSSURE, MEU FILHO, VOCÊ ESTÁ AÍ? MANIFESTE-SE.

Já que o nome Platão apareceu, nada mais natural do que mencionar Sócrates.


Dercy e Sócrates

“Essa gente me conhece, me respeita, me aplaude de pé.” (...) O que eu tenho? O que eu sou?  Até agora eu ainda não tive resposta.”

Isso que Dercy fez é simplesmente o método da maiêutica, desenvolvido por Sócrates. Se realmente for verdade que ela nunca teve contato com nenhum tipo de estudo filosófico ou literário, e que não nasceu pra ficar “queimando a pestana”, como ela mesma diz, só me resta pensar que ela é naturalmente socrática.

Dercy tem um conhecimento filosófico autodidata que ela insiste em não declarar. Quando acusada de estar "mal de espírito", ela não se ofende e nem rebate, apenas faz mais perguntas: “Eu não acredito em nada... mas será que eu não tenho espiritualidade? O que é espiritualidade? O que é isso?" Nenhum dos jornalistas do estúdio soube responder. Um teatrólogo tentou, hesitante: “Eu... acho que é o que você faz no seu show...”

Jean-Paul Sartre recusou o prêmio Nobel de Literatura, em 1964, porque duvidava da credibilidade dos premiadores. Adivinha só quem mais questionou a validade de uma premiação? Ela mesma, a própria. 
Dercy recebeu o prêmio APETESTP, em 1987, e o definiu como “um cacete dourado" e o sentimento foi: “achei de um ridículo tão grande...”. O jornalista insiste: “E você não gostou mesmo de receber o prêmio?” Ainda munida da maiêutica, ela avança: “É uma esculhambação (...) Aquele prêmio, quem deu? Por quê? Pra quê?” Coisa de existencialista... 

Todos ali presentes trabalham com informação, mas ficaram várias vezes sem reação diante da sabedoria de vida de alguém que afirma não saber nada. Acho que eu já vi essa história antes... só sei que... acho que já ouvi isso em algum lugar.... nada sei, alguma coisa assim. 

Dercy é um Sócrates que assume o título de corruptora da juventude muito antes de ser acusada. Morreu de velhice (na verdade, foi de insuficiência respiratória). Nada de cicuta. Como tem que ser. Como a sorte manda. Se é que isso tem nome.



terça-feira, 11 de março de 2014

RACHEL SHEHERAZADE: MENTIROSA E LITERÁRIA

Depois de assistir a entrevista de Rachel Sheherazade para A Máquina, eu tive a confirmação do que eu já sabia há tempos: ela não é nada daquilo. 

Antes de provar a minha confirmação, quero esclarecer o que é o “nada daquilo”. 

Rachel Sheherazade não é uma jornalista da Paraíba que ficou conhecida pelo seu ácido comentário que corroeu o carnaval de 2011. Rachel Shererazade não se tornou, por conta disso, a âncora do principal (e mais divertido) jornal (de todos os tempos) do SBT. Rachel não é um fantoche nas mãos do Silvio Santos e da batida e nocauteada mídia golpista, como quer a Carta Capital (e aproveitando a deixa, alguém podia bater na Carta Capital por publicar esse tipo de matéria {veja o link}). E por fim, Rachel Sheherazade também não é aquela jornalista de extrema direita, ultra-conservadora, cristã, mulher de bem e fã do Justin Bieber.

Não, Rachel Sheherazade não é nada disso que você está pensando, eu posso explicar. Rachel Sheherazade agora será desmascarada, descaracterizada e aomilhada nesse blog.


Rachel Sheherazade chorosa. Foto rara

Eu descobri, por a+b, que Rachel Sheherazade é nada mais e nada menos do um heterônimo. Criadora e criatura, Rachel é um ortónimo. Um personagem. Um alter ego do horário nobre. (Fernando Pessoa hoje vai puxar o meu pé...) Por extensão e por lógica, acho que eu também acabei de afirmar que Rachel é uma escritora, uma literata. E eu também acho que algum dos imortais deveria se levantar de uma das cadeiras da ABL para dar lugar para a moça sentar. Questão de educação literária. Ladies first

Eu desconfio do diploma de jornalismo de Rachel Sheherazade, não por incompetência jornalística, mas sim por excesso de outro tipo de competência: a narrativa e a interpretativa. Rachel tem tanta presença de palco que eu não sei o que ela está fazendo sentada atrás de uma bancada. Seus textos são tão bem fechados e estruturados que eu não entendo como o Ministério da Educação não a chamou até hoje para trabalhar de revisora dos livros didáticos. 

Rachel, a performer das notícias, merecia mais do que alguns minutinhos para falar o que pensa. Ela merecia uma companhia de teatro com peças intermináveis no estilo monólogo (e cartazes impressos na cor marrom). Manoel Carlos realmente errou na escolha da sua última Helena. Se como comentarista de guerra ela não agrada nem a gregos e nem a troianos, como leitora de suas próprias cronicas ela deixa todos os atores dos últimos tempos de Malhação (e das novelas das 6, 7, 8, 9 e 10) no chinelo.

Voltando ao assunto do diploma, eu acho que se alguém procurar vai encontrar nas gavetas de Rachel um certificado de Artes Cênicas ou de licenciatura em Letras. Rachel, rima com menestrel. Nunca li Interpretação e Superinterpretação, do Umberto Eco, mas imagino que ela saiba de cor.


P.S: Esse texto peca por exagero.